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sexta-feira, 12 de março de 2021

A Energia dos Alimentos - Um guia para a alimentação intuitiva - Cap 15 - Como superar a gula?


Ao contrário do que se pensa, a gula é um estado da mente que diz “Eu posso". Contrariando a fraqueza e a fragilidade, o estado de se deixar impor por regras e formas corretas de se alimentar. É um estado de rebeldia e busca por independência emocional.

Assim como todos os estados de dependência, para que consiga se desvincular, a princípio se trabalha a vinculação a algo mais leve, que permanecerá como algo provisório a auxiliar na completa liberação.

Em busca da independência emocional, alguns passam a depender dos alimentos, tornam-se escravos e diante deles não são capazes de controlar as suas emoções, se colocam fragilizados, após um período do dia de luta, de busca, é chegado o momento em que são recebidos nos braços amorosos e acalentador da comida, onde deixam todo o seu medo. Pois isso eles podem, está no controle de cada um, e então é a válvula de escape para uma vida onde não conseguem se impor e desvincular emocionalmente de situações que os prendem, que não permitem que sejam eles mesmos.

Esse estado emocional de vinculação pela vida, é apresentado em relações amorosas ou de trabalho, ou mesmo de uma rotina de vida que não é satisfatória para nós. Olhamos a nossa vida sob um patamar externo, e vemos apenas um personagem que cumpre ordens, regras, determinações, para sobreviver. Enfim, o momento da comida se torna libertador, prazeroso, pois é livre de regras, podemos nos alimentar do que quisermos, e vemos nesse ato de se alimentar, um momento de relaxamento.

Afinal, alimentar-se não deveria ser o único momento de relaxamento e de prazer na vida, mas sim o todo, o completo.

Para viver de forma equilibrada, devemos buscar esse estado de prazer o tempo todo, em todas as nossas atividades. E aí surge a gula. Pois alimentar-se é a única forma que algumas pessoas encontram de sentir esse prazer pela vida, essa alegria. E transformam todos os momentos de sua vida em atos de se alimentar. Levam o alimento como válvula de escape a fazer parte de todos os momentos diários. E enfim acabam se tornando dependentes disso, que passa a ser como um vício, uma droga, que faz com que sinta que está sendo feliz, mas que na verdade é uma ilusão.

Então vêm as dietas milagrosas, que fazem com que deixemos de nos alimentar por prazer, mas sim apenas para suprir a energia do corpo físico, e nos tornamos depressivos. Desesperadamente passamos fome, choramos, deixamos sair toda a emoção que estava guardada e que estava projetada no alimento. Tudo passa a não ser mais satisfatório. Nos vemos estressados e impacientes diante da família, do trabalho e em todos os ambientes que frequentamos, nada mais nos faz feliz. Pois a verdade é que o que o fazia feliz era o alimento, e ele mascarava a experiência que não queríamos viver.

Éramos infelizes em nossas rotinas, e o alimento fazia com que esquecêssemos disso, como uma droga.

Então, como trabalhar o desapego do alimento, como lidar com a gula, para que não entremos em profunda depressão e desgosto pela vida?

Sabemos que enquanto sementes frágeis de luz, não somos ainda capazes de nos desvincular totalmente de todas as formas de dependência emocional. Substituímos relacionamentos, trabalhos, casas, carros, substituímos até mesmo vícios. E portanto, vamos galgando degrau por degrau, de uma escada de iluminação e limpeza daquilo que nos prende à matéria.

Essa escada se tornará mais iluminada na medida que formos soltando todos esses apegos. Mas para alcançar mais um degrau, nos libertamos de um apego, agregando outro mais leve, e então vamos encontrando forças em nós mesmos para um dia nos libertarmos de tudo que nos prende à matéria.

Enfim, simplesmente soltar a gula, deixar de comer nos momentos da vida em que somos infelizes, não trará a nossa felicidade, e sim fará com que nos afundemos em profundidade em um estado grave de depressão, que fará perdermos o gosto pela vida, e inclusive poderá trazer pensamentos suicidas, por isso esse processo é trabalhado com antidepressivos pelos médicos, para que esse desapego não gere graves consequências.

Mas enfim, nos tornamos dependentes do medicamento, em substituição ao alimento. Mas a verdadeira causa da compulsão e da dependência está na nossa própria vida, e ainda precisamos vivê-la. O médico, o terapeuta, não poderá substituir a nossa vida por outra, até porque o que nos faz infeliz não é especificamente o nosso trabalho, rotina, família, mas sim qualquer forma de trabalho, rotina ou família que experimentarmos despertará o mesmo sentimento.

O que necessitamos resgatar é o amor pela vida, o amor por tudo que é da forma que se apresenta, sem necessidade de quaisquer modificações ou ajustes. A vida se torna perfeita aos nossos olhos, e passamos a desfrutá-la. Esse é o objetivo da cura e é o que sentiremos quando soltarmos os vícios.

Para trabalhar de forma gradativa e permitir que alcancemos mais um degrau em direção a viver plenamente feliz no aqui e agora, soltemos etapa por etapa do nosso apego.

Sabemos que tudo o que faz parte de nossa vida, ou quase tudo, nos faz infeliz, e buscamos para isso a válvula de escape do alimento. Então passemos a observar nossas ações. Em quais momentos despertamos a vontade de comer, aquela vontade compulsiva que já conhecemos, de nos alimentar de algo apenas na busca de nos equilibrar, de tornar nosso dia mais feliz?

Escolhemos apenas um momento, um aspecto. Por exemplo: se todos os dias após sair do trabalho sentimos vontade de beber uma cerveja, ou comer um doce, busquemos o sentimento que nos faz buscar por esse alimento. Esse sentimento é algo equilibrado? Tivemos um dia feliz e recompensador? Estamos felizes? Ou é apenas uma válvula de escape para algo que decidimos não olhar? Para uma rotina da qual não queremos nos desvincular e que não somos felizes?

Se todos os dias após passar por alguma experiência rotineira, despertamos a vontade de nos alimentar de forma a acalentar nossos corações, a trazer um pouco de felicidade àquele momento, nesse instante, o alimento não é apenas um alimento, mas ele se torna o nosso terapeuta, o nosso vício. Nos alimentamos para suprir a necessidade do sistema corporal, e não a acalentar as nossas emoções.

Tudo o que fazemos em busca de acalentar as nossas emoções é o suporte que sustenta a máscara que colocamos em nós mesmos, e nos impede de ver a nossa vida como ela é. Colocamos naquilo a expectativa de receber em troca um pouco de felicidade, de satisfação, e então acabamos nos alimentando de forma exagerada, apenas para sustentar a máscara.

Então, vamos trabalhar para tirar gradativamente essa máscara, mas em partes. E para que o processo não seja doloroso a trazer depressão, trabalhemos primeiramente substituindo esse momento de alegria por outra atividade. A alegria que buscávamos comendo o doce após um dia estafante de trabalho, ou uma briga com o namorado, vamos substituir por algo que seja mais leve, e que não prejudique todo o sistema corporal. Comecemos a praticar uma atividade física, façamos um passeio no parque, comecemos a ler um livro, a praticar meditação, a orar, a frequentar um local de paz onde possamos acalentar o nosso coração com atividades leves, como um templo de nosso gosto. Onde podemos simplesmente viver uma experiência que nos faça feliz, e que substitua o momento de compulsão. Mas sabemos que é provisória, pois o nosso objetivo é desapegar de todos os recursos que nos impedem de olhar para a nossa própria vida e aceitá-la como ela é.

Gradativamente vamos nos liberando até mesmo das ações que trouxemos para substituir a gula, mas estaremos mais fortes, e alcançamos mais um degrau na nossa busca.

Dessa forma, fazemos a nossa própria cura com amor, olhamos o nosso corpo e as nossas emoções com carinho e compreensão. Damos o tempo que é necessário a nos adaptarmos, a nos ajustarmos a uma nova forma de viver, mas que em um primeiro olhar parece ser impossível de alcançar, mas que é possível àquele que trabalha de forma a unir amor em suas ações. Amor por si mesmo, sem cobrar-se além do que é capaz. Vamos ajustando a rotina, a vida, até que tudo se encontra em perfeito equilíbrio.

Assim nos libertamos da gula e acolhemos a nossa vida em amor.


Michele Martini - 12 de março de 2021.
Fonte: www.pazetransformacao.com.br