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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Eu Sou - Michele Martini

 

O novo ano começou. E agora não me resta mais nada além de aceitar o que está por vir.

Digo isso, porque nas resoluções de ano novo, eu apenas entreguei a Deus todas as minhas pretensões.

A virada de ano foi muito estranha. Pouco antes da virada, às 11 pm, eu estava em casa aguardando o Miguel se aprontar para sairmos assistir a queima de fogos na praça. Mas algo me dizia que eu não deveria ir.


Enfim, para manter o combinado com ele, fomos. Ainda no caminho pensei em dizer a ele para mudarmos o plano e irmos na pista de rolimã. Mas não falei nada.

Ele tomou um caminho pelo Waze que passou por dentro da favela. Foi horrível. Eu senti uma dor forte no meu ombro esquerdo. Era sinal claro do meu guardião me alertando. Ainda estou me acostumando com esses avisos. Muitas vezes recebo tais avisos, mas não sei o que é.

Nesse caso percebi o que era quando adentramos na área perigosa, e vi várias cenas ruins. Fiz meu ancoramento e segui em paz, na certeza de estar protegida. Nada nos atingiu, e seguimos novamente nosso caminho.

Enquanto escrevo, o alarme do vizinho dispara novamente. Nossa, como isso tem me irritado desde ontem. Passei vários dias em casa e posso afirmar que esse alarme toca mais de cinco vezes ao dia.

Pronto, coloquei uma música de fundo para não ouvir esses ruídos.

Às vezes fico a pensar o porquê estou vivendo nesse lugar, em meio a tanto motivo para me irritar. No meio de um local onde há tanto barulho desnecessário. 

Às vezes tenho vontade de chorar. Nesse momento tenho vontade de chorar.

Ando assistindo uma série que mais parece uma novela. Tenho aprendido muito sobre relações familiares. Mas parece que meus últimos instantes antes da virada do ano, e todo esse inicio de novo ano, trouxe sentimentos muito estranhos. Não sei o que pensar. Não sei se abriu um portal para que eu possa liberar algo, ou se estou com obsessor. Enfim, não sei o que fazer.

Sei apenas que ontem fomos na praça ver os fogos, mas ainda assim não foi bom. Paramos o carro próximo do local e caminhamos para chegar até lá. Quando estávamos na rua, em frente à praça, aguardando a queima de fogos, comecei novamente a sentir uma dor no meu ombro esquerdo. Imediatamente visualizei um homem em atitude suspeita do outro lado da rua atravessando para o lado onde eu estava, e ele passaria caminhando próximo a mim. Senti que era um aviso que ele carregava energia pesada.

Após isso, a queima de fogos que deveria ocorrer não aconteceu. Caminhamos novamente em direção ao carro, e eu novamente comecei a sentir essa dor no ombro esquerdo. Caminhava em direção a nós mais um homem em atitude suspeita. Eu percebi que ontem a cidade estava carregada de energias densas e eu estava sentindo tudo isso. Não devia ter saído de casa.

Ao me aproximar de casa novamente, sentada no banco do passageiro enquanto o Miguel dirigia, eu comecei a me sentir melhor. Ainda estávamos a cinco quadras de casa, mas a energia já era bem diferente. Não sei o que aconteceu. Acho que nessa área onde moro, de tanto trabalho que realizo para purificação e aceitação de tudo em minha volta, de tanto que trabalho na invocação com a chama violeta, a energia está muito melhor.

Aqui me sinto bem. Sei que há os barulhos como o alarme do vizinho, as crianças do outro vizinho que não saem da rua na frente da minha casa e ficam a gritar e chorar e não dão um minuto de paz e silêncio..., mas isso me faz apreciar ainda mais os momentos de paz e silêncio quando eles acontecem, que são raros.

Acho que esses dias sem ir ao trabalho, sem quase nada a fazer na congregação, e passando tanto tempo com o Miguel, me deixaram cansada. Porque sinto falta de estar sozinha. De meditar, de escrever, de apenas estar sozinha sem nada a fazer, sem ninguém para dividir o espaço.

Seria isso egoísmo? Acho que não. Pois até o Miguel não aguentaria. Eu preciso de espaço para respirar. Preciso da casa para mim, só para mim. Eu não me adaptaria se tivesse que viver em um lugar com muitas pessoas, pois gosto de estar sozinha.

Isso me faz entender um pouco a minha mãe. Ela também gosta de estar sozinha, tenho que admitir que nisso somos muito parecidas. Afinal ela não age como uma mãe. Talvez agisse quando eu era criança. Mas depois, da adolescência em diante ela mudou. Ela colocou em primeiro lugar ela mesma, mesmo que para isso fosse necessário sacrificar a relação que tinha criado com a família, o núcleo familiar.

Hoje tenho minha família. Eles se chamam Maggie e Homer. São dois cães. Os dois estão o tempo todo a acompanhar minha história. Já mudaram de endereço diversas vezes, sempre a me acompanhar. Uma única vez os deixei para trás, foi quando me separei do meu ex. Ele não aceitava a separação, e foi necessário que eu os deixasse no começo com ele, até ele melhorar. Acontece que eles absorveram muito da energia carregada que ele trazia e adoeceram.
Então um dia eu fui até lá e os peguei. Os levei para a casa da minha mãe, onde permaneci morando por alguns meses. Eu não tinha para onde ir. Foi difícil permanecer lá. Pois como eu já disse, minha mãe não estava mais se esforçando para manter sua família, ela apenas queria atender as suas próprias necessidades. Ela e eu sempre tivemos uma relação difícil. Eu cheguei lá disposta a ajudá-la, a reformar a casa, a investir, a ficar com ela. Mas não foi o que aconteceu. Ela mandou eu sair.

E assim eu fiz. Miguel me ofereceu para ir morar na casa dele. Mas esqueceu-se de pedir para a dona da casa, a sua mãe. Criou-se uma situação bem ruim. Onde eu pensava estar em minha nova casa, e ela me via como uma intrusa que chegou sem avisar.

Maggie e Homer ficaram mal, Maggie matou as galinhas dela, e eu sai de lá. A situação ficou insustentável.

Enquanto escrevo, Maggie me olha de longe. Ela está debaixo da mesa, com medo dos foguetes. Ela percebe que eu nesse momento derramo lágrimas com o pensamento em algo que devia ter ficado no passado. Mas por algum motivo retomei tudo isso agora e estou a pensar. O que aconteceu para que tudo isso retornasse em meu pensamento?

Seria esse o motivo para eu ter me sentido mal pouco antes da virada do ano, e hoje ser um dia tão estranho? Na minha imaginação, esse primeiro dia do ano seria especial. Seria um dia onde tudo é alegre e carregado de esperança. Mas a realidade é contrária. Eu vejo vários horizontes se mostrarem. Vejo a oportunidade de investir na escrita, fazer um curso para aprimorar-me como escritora. Mas por outro lado também preciso fazer academia, pois todo tempo livre que tenho utilizo para o trabalho espiritual de caridade, e não cuido da minha saúde.

A verdade é que tenho colocado tudo em primeiro lugar e eu em último. Sempre fui assim. Não sei como não ser assim. Já publiquei dois livros, e não sei como dar continuidade nessa carreira, já que não tenho dinheiro. Tenho o dinheiro que recebo do meu trabalho, mas se eu sair dali para começar a trabalhar como escritora, não terei nada de dinheiro.

Enfim... essa dúvida foi que começou em minha cabeça logo de manhã cedo no primeiro dia do ano. E já pedi informações e ajuda aos meus guias que me ajudaram com as cartas de tarô, que mostraram que o trabalho como escritora é algo que virá um passo de cada vez. E que o emprego que tenho hoje, e que paga as minhas contas, é o melhor que posso ter para trazer o aprendizado que necessito de aprimoramento moral e espiritual, além de trazer o ganho financeiro necessário para viver com tudo o que preciso.

Sou sozinha. Esqueci de dizer isso. Somos apenas eu, Maggie e Homer. E pago sozinha o meu carro, a minha casa, seguro do carro, e todas as contas. Maggie e Homer são cães de porte grande, que demandam bastante despesas, além de já terem uma idade avançada, o que faz com que nessa fase precisem de cuidados especiais.

Sou celíaca e vegetariana. E essa dieta especial e de qualidade, também demanda investimento financeiro. Não para o caso do vegetarianismo, que é barato, mas sim para o caso da doença celíaca. E Deus provê tudo o que necessito através do meu emprego que me paga muito bem.

Tenho relutado bastante a escrever sobre mim. Criei uma imagem sobre mim que gostaria que fosse sustentada. Mas a verdade é que tenho oscilações entre altos e baixos da vida. Caio frequentemente em minhas fraquezas, e elevo-me abruptamente e rapidamente a me sentir flutuando nas nuvens. Minha vida é marcada por isso. Por essa frequência de altos e baixos.

Tenho alimentado os pássaros da natureza diariamente. E isso me faz lembrar o quanto os amo e admiro. O quanto gostaria de ser como eles, livres, a voar sem serem obrigados a nada.

Porque a vida não pode ser simples assim, onde procuramos por nosso alimento e abrigo e nada mais? Porque precisamos ser alguém? Porque o pássaro não fica tentando ser pássaro, e eu fico tentando ser eu a todo custo?

O fato é que o pássaro vive do necessário e nada mais. E eu quero abraçar o mundo. Quanto tenho a aprender com os pássaros. Eles são tão diferentes entre si, e cada um tem a sua beleza. Vejo as maritacas, como elas se alimentam devagar, o movimento que fazem com a cabecinha para se alimentar é tão calmo, a bicar a fruta lentamente e suavemente. Mas são tão rapidinhas para mastigar, e também fazem um escândalo tão grande quando estão a gritar na árvore, mas como podem ser suaves ao bicar a fruta, fazem isso com doçura e delicadeza.

E os bem-te-vi são tão agitados para comer uma fruta. Eles chegam voando como todos os pássaros, mas continuam a voar enquanto bicam. Raramente param e pousam ao lado da fruta a bicar, estão sempre alertas. Vejo o sabiá se aproximar dele, mas ele não sai de perto da fruta. Ele expulsa o sabiá se quiser. Mesmo que seja um grande sabiá, ele respeita o bem-te-vi.

Os bem-te-vis se alimentam sozinhos, e os sabiás também. Já as maritacas, se alimentam em grupos, mas só entre as maritacas, sem outras espécies junto delas. Os canarinhos azuis também podem vir sozinhos ou em dupla, e se alimentam juntos da mesma fruta. Mas não junto a outras espécies de pássaros.

O joão-de-barro então, é muito parecido com o sabiá em comportamento, ele bica a fruta sozinho, não permite outro pássaro junto dele.

Amo observar as aves. Eu poderia discorrer uma linda história sobre elas. Mas tenho tão pouco tempo para fazer isso.

Recentemente comecei a escrever uma história, foi uma maneira que encontrei de externalizar muitos sentimentos que carrego, e colocar de forma fantasiosa e mágica para as pessoas. Mas tenho grande dificuldade em dar continuidade a tudo isso, porque? Seriam todos os escritores vítimas desse mesmo problema?

Só o fato de eu saber que tenho a obrigação de escrever aquela mesma história todos os dias, que criarei uma rotina com obrigatoriedades, já me desanima. Não consigo viver sob pressão, isso mina meu processo criativo e me deixa vazia, bloqueada para escrever.

Ontem não escrevi a história da Josefina, pois foi um dia todo preenchido da presença do Miguel. Ele esteve comigo o dia todo e eu não tive um tempo sequer para escrever. O tempo que consegui me afastar um pouco foi para fazer meu ritual de ano novo, onde queimei as velas dos sete raios cósmicos junto a uma carta onde descrevi todas as minhas virtudes e tudo o que agradeço e quero fortalecer para o próximo ano. Todo o ritual foi acompanhado pela minha cantoria de Hare Krishna Gopala. E foi emocionante. Derramei lágrimas, cantei, bati palmas, foi ótimo para extravasar, eu não queria que acabasse nunca. Visivelmente incomodei os vizinhos que ligaram uma música no último volume para abafar o meu som. Mas o que eu poderia fazer se eu precisava me expressar e fazer meu ritual de purificação de fim de ano?

Em seguida ao som de um mantra em louvor a Shiva, queimei no fogo tudo o que eu carreguei até o ano passado e que me trouxe tanto sofrimento. E quando falo que carreguei não era algo físico não. Eram comportamentos e pensamentos destrutivos que me destruíam e me boicotavam, e que os curei e libertei na energia de Shiva como destruidor do ego. Agradeci a todos os guardiões por estarem comigo. Também nessa parte acabei incomodando alguns vizinhos pois cantarolei com o coração na boca para quem quisesse ouvir. Podem me chamar de louca se quiserem.

Esse novo ano começa, e me sinto muito melhor em estar colocando no papel, ou seja, no computador, tudo o que estava engasgado na minha garganta. Para esse novo ano não quero disputas, quero ser como a água que flui. A água nunca flui para cima, sempre para baixo. Não busca o topo e nem o destaque, e assim também irei focar a minha vida. Meu objetivo será ser como a água. E por isso não me importarei se o que estou escrevendo agradará a quem irá ler. Apenas é um meio para que eu possa liberar e manter esse rio fluindo dentro de mim.

Não quero destaque e nem vender livros, não quero estrelato. E acho que esse é o dilema de muitos escritores. Pois começamos a escrever para sermos mais felizes, para nos sentirmos melhor, e nada mais. Pois a nossa vida já é tão carregada de realidades e desafios, e precisamos de momentos que nos façam tomar contato com a nossa essência. E a escrita é uma forma de liberarmos todos os sentimentos e anseios, e nos esvaziar.

Vou focar esse ano em escrever apenas para esvaziar. Pouco me importarei se estou escrevendo algo para agradar. Mas o que importa é que eu usarei desse meio para me libertar da prisão da mente. A mente não pode me aprisionar, eu sou livre como o pássaro. Eu tenho minhas características, e enquanto tentar ser um pássaro que agrada aos outros pássaros nunca serei eu mesma. Porque eles não se misturam entre espécies. Eles são belos como são, são diferentes e se completam em suas características únicas.

Que esse ano eu consiga lembrar de tudo isso, que eu consiga escrever apenas para ser como o fluxo da água, que apenas flui... e sempre para baixo... nunca para cima. Pois a pressão da vida e a ilusão da matéria pode nos fazer pensar que precisamos nos destacar, que precisamos aparecer. Mas os reais sentimentos das pessoas estão do lado de dentro, lá em baixo, cada vez mais embaixo.

O que elas mostram e extravasam para cima é apenas o que elas querem que as pessoas vejam e saibam sobre elas, mas os reais sentimentos e o que diz sobre o que elas são não está ali. Precisa cavoucar mais fundo, precisa fluir como a água, mais e mais profundo, mais e mais abaixo.

Não quero que as pessoas pensem que sou o que não sou. Não quero tentar ser alguém para agradar aos demais. Quero apenas ser eu. E apenas sendo eu sou feliz. Se venderei mais ou menos livros? Pouco importa. A autenticidade tem seu preço, e as vezes é preciso renunciar ao reconhecimento externo para preservar a verdade interior. Afinal, eu existo apenas para ser a minha verdade, nada mais importa. E para me adaptar ao que a vida cobra, ao que a sociedade cobra, ao que o mercado literário ou os leitores, a família ou o trabalho cobram, talvez eu teria que deixar de ser eu mesma.

Então escolho ser eu a qualquer custo, e abro meus braços a receber o que for para ser meu. Compartilhando minha vida como um livro aberto, assim como sempre fiz. Sem medo e sem preconceito. Pois o preconceito nasce do receio de olhar para quem eu realmente sou, e renunciar ao posto que ilusoriamente criei para mim. Tudo faz parte da morte do ego, e do retorno à verdadeira essência. E tem prêmio melhor do que ser a própria verdade, de encontrar a si mesmo?

Isso ninguém poderá dar a você. Ninguém poderá dar a você o encontro com quem você realmente é. Isso depende apenas de nós. E se não investirmos toda a nossa vida nisso, não iremos alcançar, pois ninguém irá fazer isso por nós. Então só me resta renunciar a tudo para ser eu e nada mais. E isso me fará levar a vida mais leve e suave. Me permitirá apreciar cada doce experiência assim como se apresenta. E estar em paz com tudo o que é colocado a mim.

Sou quem eu Sou.

Michele Martini- 01 de janeiro de 2019.

Fonte: www.pazetransformacao.com.br

OBS: Se quiser ler os textos da Josefina, acesse: https://medium.com/@michelemartini