sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Um relacionamento estável acaba com nossa solidão? - Thiago Strapasson


A solidão não é apaziguada por algo externo. Ela está em nosso interior.

Muitas vezes vemos em um relacionamento aquilo que por momentos nos ameniza a solidão. Sentimo-nos temporariamente preenchidos. Mas o tempo nos devolve a solidão se não a trabalharmos interiormente.


Temos que trabalhar nossa maestria, a conquista de nossa independência interior. Caso contrário usaremos máscaras a agradar aqueles que estão ao nosso redor. Usaremos de personagens para satisfazer e mais uma vez nos deixaremos de lado.

Assim são feitos os relacionamentos onde a solidão ainda impera no interior daqueles que não aprenderam o prazer de estar consigo mesmo. Um relacionamento saudável se dá quando aprendemos a ser nosso melhor companheiro, nosso melhor amigo. Quando estamos íntegros, nesse estado de confiança, passamos a ser nosso melhor amigo. É assim que construímos um relacionamento saudável, quando não precisamos do outro, abandonamos as máscaras, não necessitamos fingir ser algo apenas para agradar, para manter o companheiro feliz. Primeiro nos tornamos nosso próprio companheiro, depois encontramos um para nossa vida.

Mas enquanto esse sentimento de solidão não for trabalhado dentro de nós, seremos dependentes, apegados, teremos medo, não estaremos livres. Por outro lado, quando somos capazes de ser feliz em nossa própria companhia, porque fomos ao encontro de nós mesmos, tornamo-nos realmente bem-aventurados.

A maioria, no entanto, busca no outro, numa relação, a possibilidade de apaziguar sua solidão. Acaba trazendo mais luta à vida, medo de perder, de ser abandonado. E nessa relação veste máscaras que utiliza para tornar aquele que está próximo feliz, abre mão de sua verdade em prol da estabilidade de um relacionamento, submete-se aos quereres alheios deixando novamente de tomar contato com sua essência.

Um relacionamento, por mais estável que seja, jamais apaziguará nosso sentimento de solidão se não a transcendemos interiormente.

O sentimento de solidão torna o relacionamento doentio e acaba com o amor. O sentimento de solidão exige, quer, deseja, tem medo de perder e não permite a paz. Mas quando estamos bem em nossa própria companhia podemos viver um relacionamento onde o verdadeiro amor impera.

O verdadeiro amor é aquele que não exige, que aceita, que deixa fluir a relação. Ele não quer nada em troca, não deseja nada. É um relacionamento onde os parceiros iniciam uma verdadeira troca de sentimentos, de companheirismo, sem máscaras, sem exigências, apenas pelo prazer de dividir, de estar junto. Os relacionamentos duradouros e saudáveis são feitos por aqueles que transcenderam sua solidão interior e permitem a autenticidade dos pares.

A maior parte dos divórcios, separações, brigas, se dá porque em algum momento a máscara se torna insuportável de ser vestida. Passa a doer. Em um momento nossa alma nos chamará à verdade. E nesse momento pediremos pela troca do modo como a relação se dá. Então começam os jogos emocionais, as brigas, os dramas, as separações. É quando a autenticidade aparece na relação.

Um relacionamento feito na dependência do outro jamais será saudável. Ele é feito de personagens que sobrevivem enquanto perdurar o interesse pela relação, enquanto o chamado não for forte para nos conduzir à autenticidade.

Assim também se dão as traições, as mentiras, que são nada mais que a manifestação da ira por aquele que não nos permitiu ser autêntico. Mas o que não percebemos é que não foi o outro que não nos deixou ser autêntico. Fomos nós que vestimos a mascará para agradar. Fomos nós que, com medo da solidão, criamos o personagem para acarinhar. A relação se criou doente, em razão do medo da solidão, do medo de estar só e atraímos aquele que de alguma forma nos apazigua a solidão.

Em um primeiro momento a paixão nos preenche, sentimo-nos menos solitários por termos encontrado alguém que nos amasse. É disso que é feita a paixão, de algo que nos apazigua a solidão. Mas o verdadeiro amor é algo que se constrói, com alicerce na verdade, na autenticidade, no amor verdadeiro que não exige, mas aceita.

Nenhum relacionamento nos completará se não estivermos completos, se estivermos a fugir de algo. Um relacionamento construído com bases sólidas, sem máscaras, sem medos, com permissão, onde não precisamos do outro para nos completar, onde somos completos, é o relacionamento que nos traz felicidade, que nos complementa, que nos conduz à felicidade, que nos tira da solidão.

Tira-nos da solidão, não em razão do relacionamento em si, mas por que nos encontramos, tornamo-nos íntegros e assim atraímos à nossa vida um par com maturidade suficiente para ver a vida da mesma maneira. Construímos algo a partir de um encontro verdadeiro de almas, sem máscaras, sem mecanismos onde nos enganamos e a outro também, sem o desejo de agradar.

Aquele que está maduro, que não é solitário, é o que está pronto a amar, a conhecer, a se entregar. É aquele que não é agradável pelo personagem que criou, mas se tornou amável em sua alma. Tornou-se como uma luva que aquece, protege e permanece ao lado, trazendo conforto e bem-estar. Não por querer ser assim, mas porque essa é sua natureza.

Como é bom estar ao lado de alguém que seja íntegro, confiável, verdadeiro, amável, alguém que permite, que deixa ir, que não tem medo da solidão.

Mas aqueles relacionamentos que não possuem essa base, são aqueles onde o medo se transformará na mentira, no medo, na ira, na agressão, na compulsão. Esses relacionamentos são feitos por aqueles que reagem diante do medo de estar só, que se tornam irracionais e não medem as consequências diante do pavor que o medo da solidão pode causar.


Devemos construir nossos alicerces, nossas bases, para que o amor não nos cause sofrimento. Porque o amor não causa sofrimento, mas sim a solidão, o medo de nos sentirmos solitários. O amor aquece, é bom, é suave, saudável, feliz. Que possamos então nos tornar nossos melhores companheiros para que assim possamos nos tornar felizes, prósperos e amados, sendo verdadeiros diante de nosso coração.

Thiago Strapasson - 31.08.2017

Fonte: www.pazetransformacao.com.br