terça-feira, 25 de julho de 2017

17. Como não projetar o ódio ou a infelicidade naqueles com quem se convive?


Quando trazemos dor, sofrimento, ódio, no coração, não somos capazes de projetar um sentimento puro de luz a outros, ou mesmo àqueles com quem convivemos.


Trabalhamos dentro das nossas experiências, a curar tais dores da alma, que trazemos como herança de nossas outras manifestações na matéria, onde agregamos sabedoria, mas também restrições e sofrimento, que se reflete como ódio e infelicidade.


A questão é: Porque estamos aqui?


Estamos a repetir a experiência material para que possamos curar tais feridas, e transformar essas experiências dolorosas em sabedoria, transcendendo o ódio, e também a infelicidade.


Aqueles com quem convivemos vão, gradativamente, trabalhar para expor tais pontos de restrição em nossas personalidades, e também estão ali para acalentar os nossos corações quando da descoberta da ferida, em toda a sua profundeza, desde a raiz.


A exposição da causa do sofrimento à nossa compreensão, é causadora de ódio, infelicidade, insatisfação, pensamentos depressivos e dor, mas quando acalentada no amor daqueles que estão ao nosso lado para nos acolher em seus braços, passamos a deixar que nos levem em seus braços amorosos, a nos receber em nossas imperfeições.


Nos entregamos sem armas àqueles com quem convivemos, assumimos as nossas falhas, e então, deixamos o peito aberto para que seja preenchido com o seu amor acalentador.


O trabalho que fazemos por toda uma vida, para nos liberarmos das restrições que trazemos manifestadas em forma de ódio e infelicidade, pode evitar de levarmos esse sentimento àqueles com quem convivemos.


A exposição desses aspectos através do amor, faz com que a verdade se revele, e impeça a atuação dos comportamentos obsessivos e de sofrimento nessas situações.


Vemos famílias se dividirem por esse fato, pois os que chegam mais novos trazem as restrições da alma, que são expostas através das “provocações” daqueles com quem convivem no âmbito familiar. Os familiares são os que farão com que as feridas sejam expostas, e por isso acabam por ser onde vamos projetar todo o sentimento de infelicidade que trazemos.


Deixamos de olhar para a infelicidade e reconhecê-la dentro de nós mesmos, e projetamos ela naqueles que estão conosco para expor as nossas feridas, para que sejam curadas. São acusados de serem os causadores do nosso sofrimento e serão o alvo do nosso ódio, que não os perdoa, que traz sentimentos de raiva no coração, por vezes, por toda uma vida.


Quando trabalhada a abertura do coração, a revelar as dores da alma, as feridas são expostas, mas acalentadas com amor. E isso faz com que aquela restrição seja trabalhada em um âmbito profundo que fará com que a cura aconteça de forma definitiva.


A partir da compreensão de que somos unidos, somos um, somos um só em energia e que se completa em aprendizado, passamos a permitir que se dissolva a infelicidade e o ódio no amor.


A natureza do ego, é proteger a ferida. Como um animal ferido, culpamos e odiamos todos aqueles que se aproximam de nós, e inclusive aqueles que procuram trabalhar para curar as nossas feridas. Pois nós, animais feridos, protegemos a ferida para que não seja exposta, não queremos olhá-la. Formamos um escudo que nos protege dessa exposição. Que nos afasta da aproximação de todos aqueles que tentarem tocar a ferida.


Assim ocorrem as relações no âmbito familiar, ou com aqueles com quem convivemos em maior proximidade. Eles estão juntos de nós, e olham a ferida, observam ao longe, e com a convivência, haverá as tentativas de aproximação, para que possam de fato expor essa ferida a nós. Mas ao menor sinal de que a exposição da ferida possa ocorrer, nos fechamos, projetamos ódio e toda a nossa infelicidade naquele que procurou expô-la a nós. Ele passa a ser o culpado do nosso sofrimento.


Enquanto estamos sós, envolvidos em nossa própria ilusão de sofrimento, de dor, de ódio, de infelicidade, não temos em quem projetar esse sentimento. Apenas nos corroemos a nós mesmos em ódio e desamor. Não sabemos de onde vem a nossa infelicidade. E assim diz o depressivo, que não sabe de onde vem a sua depressão ou a sua infelicidade, apenas sabe que está infeliz, que nada o faz feliz de fato. Que tem ódio disso tudo, mas não sabe identificar o motivo.


Ele está envolvido em sua própria realidade de sofrimento, criada por ele mesmo e para si mesmo. Não está disposto a expor a ferida, ele se fecha em sua proteção de infelicidade, e sem saber o motivo, ainda assim prefere não acessar a ferida, prefere deixá-la guardada escondida, pois o acesso a ela poderá o ferir ainda mais.


Mas essa ferida escondida o consome, o faz infeliz, ele não sabe o motivo, mas a verdade é que a ferida escondida o está contaminando. É como a raiz podre que vai apodrecendo toda a planta gradativamente, sorrateiramente, através da morte do sentimento de amor e esperança com a vida.


E assim se dá a depressão. A ferida não é exposta, ela permanece escondida, sem permissão de ser acessada. Nós mesmos não permitimos que seja acessada, pois é muito dolorida. Ela está guardada há muito tempo e nos causa sofrimento, e por isso está lá. Mas ela nos afeta, nos faz ficar tristes, insatisfeitos com a vida, infelizes.


Aqueles que se aproximam, com o objetivo de nos ajudar, acabam por ser o alvo do nosso ódio, da nossa infelicidade. Conseguimos então encontrar um motivo para o ódio e a infelicidade existir. Ela foi projetada naquele que veio expor a ferida, aquele que, através da convivência trabalha em nossas falhas, naquilo que nos causa dor, e que aciona a ferida, que a expõe.


O causador do sofrimento, por vezes não era consciente do papel que estava passando a ocupar em nossa vida, ele estava apenas a ser ele mesmo, a representar o papel da sua personalidade, e dessa forma, naturalmente, acaba por expor as nossas mais profundas feridas, para que sejamos verdadeiramente curados. Mas ele nos causou sofrimento, pois nos fez olhar para a ferida, ele é o nosso novo objeto de ódio e de infelicidade.


Então, como deixar de projetar o ódio nesse ser, que apenas cumpriu o seu papel em expor a nossa ferida para que seja curada?


Acessando verdadeiramente a ferida, olhando a ela, a reconhecendo, e nos dispondo a trabalhar para curá-la.


Quando de fato nos rendemos a olhar as nossas feridas, automaticamente paramos de projetar esse sofrimento em outros, e encontramos a verdadeira causa do sofrimento. Esse é um processo doloroso, de olhar para a nossa mais profunda dor, mas é necessário para que possamos viver em plenitude e felicidade.


Quando deixamos de olhar para a ferida e a reconhecer, arrastamos por várias gerações o mesmo comportamento, de forma repetida, criamos padrões. Que quando são curados em uma geração, também serão curados nas demais, para que a transformação verdadeiramente aconteça, desde a raiz do sofrimento, até brilhar em luz.


Olhemos as nossas feridas, deixemos cair os escudos e o sentimento de ódio e infelicidade, que projetamos como formas de defesa a olhar o que, de fato, necessitamos trabalhar em nós mesmos.

Michele Martini
Fonte: www.pazetransformacao.com.br